segunda-feira, 22 de setembro de 2025

A FAVELA VENCEU

A favela é uma flor
Que o sol quente cultiva
Uma companheira antiga
De infortúnio sertanejo
Precisa ter molejo
de suportar o desgosto
De encontrar com a urtiga
Que não dá nem encosto
Nem sombra
Nem se deixa tocar
A coceira é uma lombra
Traiçoeira e infeliz
Que nem trair, é só começar
Como o ditado diz
A experiencia é horrível
A unha adentra a pele
Basta que na folha rele
Fere de forma terrível
Favor não fazer confusão
Tem favela, tem urtiga e tem cansanção
Qualquer uma é capaz
Com o estrago que faz
De arrancar o couro do cristão
Triscou no vivente, ardeu
Uma boca de espinho que mordeu
Quem era menos bruto, tremeu
O poeta viu, descreveu
A favela venceu



quarta-feira, 7 de maio de 2025

Apresentação

  Prosiado, Memórias de Um Operário Mambembe que fiz 2 edições, uma em forma de livro pdf e outra no formato fanzine com colagens e sobreposições; Berano o Tombador (2019), Intifadas Literárias (2020), Sutaque na Rima – Melodia das Quebradas (2021), Panfletos de Amor na Guarita da Guerra (2022) e Coco dos Licurizais (2023), Rimas Cognitivas e Disco de Chula (2024) foram publicados até então e eis que chega Glosa Ligeira pra finalizar esta série. Por muito tempo relutei em publicar minhas rústicas elaborações não achava que fosse interessar a alguém de são juízo saber da minha lavra que rabisquei.

Sem muito a dizer ou explicar nessa apresentação que já não estejam nas mal traçadas e rimadas glosas que se seguirão no transcorrer das páginas sucedâneas e vai, de coração, um profundo agradecimento pela atenção que, por algum acaso, essa brochura despertar.

Somente 12 rimas são publicadas pela primeira vez aqui neste livro, as outras foram buscadas nos lançamentos anteriores; na verdade o ritmo das produções diminuiu bastante desde que voltei pra SP, o balançar da vida numa megalópole com todo seu fastio, contribui pra isso, com certeza. Mas, confesso, a vontade de parar pra registrar diminuiu também, fiz um adjuntório pra fazer volume e, creio, esta publicação encerra esta fase da minha pretensão artística. Num digo parar de fazer porque essas coisas é tipo vício, mas ficar reunindo e ter o trabalho de juntar, diagramar, publicar fazer circular já não me empolga tanto. Nada ganhei e essa nunca foi minha pretensão.

A etapa foi cumprida.

GLOSA LIGEIRA

Padim Ozébio negou

Parede-meia pa vó 

Da Véia num teve dó

Também num considerou

Parede-meia pa vó 

Padim Ozébio negou

                

Sangue correno na veia

Aranha que tece a teia

Bola de gude ou de meia

Quem puxa carro é a pareia

Tano com fome traz ceia

Se tocar fogo incendeia 

a chama acende clareia

 

 

No dia que tu foi

Pras bandas do Paraná 

Deixou no norte o sentido

Sentindo-se meio perdido 

Arresolveste voltar

Se num tivesse ido

Sabia nada de lá 

 

No alto da cumieira

Descamba da ribanceira 

No precipício, à beira

Essa é a glosa ligeira

Atenta sem dar bobeira 

Assenta na dianteira 

Palavra dita certeira

 

A CABOCLA DAS ÁGUAS

Mariquinha mandou dizer pra Mariquinha saber

Foi a Cabocla das Águas que vive em Mariquinha

Que Mariquinha não vê

O recado vai para ela mas serve para você

Tanto faz se acredita, duvida ô num crê

Esteje caducano, seje pessoa feita ou erê

3 dias sem beber água, 3 dias sem dicumê

Tudo tem um motivo, sempre há o porquê

O recado vai para ela mas serve para você

Foi a Cabocla das Águas que vive em Mariquinha

Que Mariquinha não vê

Cabocla das Águas falou:

Traz alfazema!

Traz alfazema!

Pra te livrar de problema

Te tirar dos espinhos

Perfumar o poema

Abrir os caminhos

Traz alfazema!

Traz alfazema!

Isso é catimbó, é catimbó

Batuque antigo, quilombola

No Terreiro de vovó.

Bate o Curimbá, bate o Curimbá

É jongo, é jongo, é jongo!

Moçambique, Angola e Congo

É pra Batucar

SOB O SOL DE SANTO AMARO

Uma fresta de claridade
Rompe a névoa matinal
São Paulo, capital
Perda de identidade 
Crack, cachaça e fumo
Despertando a cidade
Substratos do consumo
Gente desperta sem rumo
Sem forças, já nem lutam
Jardim sem flores 
O cinza sobressai-se entre as cores
Filhos choram mães não escutam
Nem os choros, nem as dores 
Nas vitrines objetos tentadores 
Qualquer desejo é caro
Sob o sol de Santo Amaro 
Á noite, a lua
Clareia quem dorme na rua
A criança cantou ciranda 
No adulto a tristeza quem manda
Futuro é palavra inexistente 
Na pronúncia de sobrevivente
Quem vive é quem sente
Desorganiza a mente
Sonhou a Disneylândia
Acordou na cracolândia
 

A MORADA DE UM ZÉ NINGUÉM

 

Ao cronista dos infortúnios, Lucas Evangelista

 

A tramela trancada, uma telha quebrada

O reboco ruiu

A furquilha lascada

Parede trincada

O alpendre caiu

A mesa virada

Dispensa escorada

O espelho sumiu

Imagem apagada

A palavra calada

Como que nunca existiu

Já é madrugada, não tem alvorada 

Felicidade partiu

 

Nada tem, nada vai, nada vem

Quem ficou que fique sem

Triste do dia que houve alguém

Tudo destruído, nada mais além

Onde não há porque não tem

Nesse fracasso procura por quem

Perdido até o horário do trem

Atordoado também

Não cabe mas, nem porém

Dentro do peito nada contém

O que sobra não convém 

Nem pra si nem pra outrem

O que tinha não se tem

Já não há quem lhe queira bem

A casa é morada de um Zé Ninguém


 

TERÇA-FEIRA NO PARQUE SANTO ANTÔNIO

Vários dias que não comia

Na dispensa nada tinha

Vivia do wi-fi emprestado pela vizinha 

A quem chamava de tia

Há dias não a via 

Será que também padece? 

(Taí alguém que não merece)

Na net a gente esquece

Espairece o sofrimento 

Virtualmente, as coisas são boas

Se ao menos o INSS desse geferimento

Ao  pedido de LOAS

Vendia o ferro de passar roupa, o dvd 

Prancheta, o ouriço de fazer o black 

(Já dava pra comprar um back)

Vendia o som 3 em 1

(Disco nenhum!)

Tinha outro celular na fita, tela trincada

As cartelas de remédios acabando

Os campana da biqueira avisando:

(Tá foda Djhow!)

A fatura chegou, O futuro acabou

No desespero

Apontando a marmita fria de comida sem tempero

Ofereceu (meu...), o violão 

Já não bastava não ter o que comer 

Ter fogão 

E não poder acender

Depois que acaba o gás 

Do botijão

O isqueiro tá só a pedra (também sem gás!)

Nem uma bagana perdida pelo chão 

Caso ache (de praxe!) não vai poder acender maisss

PESCA DE FACHO

Massa, massa, massa, Massambão 
Taba, taba, taba Tabaroa
Hoje eu vou pescar e já ouvi falar 
Que no Liberato tem uma lagoa
Que pra pesca é boa
Massa, massa, massa, Massambão 
Taba, taba, taba Tabaroa
De dia pescar piaba
Dá de noite e a pescaria não acaba 
Cende a paia faz a pira
Piaba vira isca pra traíra
Hoje eu vou pescar e já ouvi falar 
Que no Liberato tem uma lagoa
Que pra pescar é boa
Massa, massa, massa, Massambão 
Taba, taba, taba Tabaroa
 
A ponte de pau é pra atravessar o rio
Vamo   pescar de facho
Pra poder fazer clarão
Palha seca acender vira é pavio
A traíra vem na panada do facão
Saracura canta, bate asa mergulhão
Juruti avoa
Massa, massa,  massa, Massambão 
Taba, taba, taba, Tabaroa

UNA PAYADA

É oral e espontânea

Essa cantoria sucedânea

De quem, de certo, não morreu

Improvisada a palavra

Imprime a marca de quem a lavra

Que, neste caso, por acaso, sou eu

No traço da lida do dia-dia

Frases conduzem a melodia

O que algum dia, foi glória

Hoje, parte ocultada da história

Esconde a dor da melancolia

Devastações viram pastagens

Animais ruminam dores

Os donos, quantificam valores

Atores recriam imagens

Cenas de ódio maquiadas de amores

Cessam as mensagens

Estão mortas as flores!

Recicladas. são placas na estrada

Exibem a logo dos patrocinadores

Passo com a seta mirada

Evito os locais indicados

Tenho asas longas

Fui criado sem muitos cuidados

Sem muitas delongas

Sendo mais um da estirpe dos Bardos

Na payada faço minhas milongas

TUDO TÃO

Cansados pés descalços 
Sangram pelo caminho
Promessas de amores falsos 
Cravejaram espinhos
A carne quer carinhos
Chega de selvageria!
Coração tá machucado 
Pele áspera já foi macia
Uma flecha atravessada
Com veneno preparada
Acertou o alvo errado 
Tudotão, t ão complicado entender
O que sobrou dos estilhaços 
Esbagaçados, quase que perto do fim
O que restou de mim
Solicita abraços
Pra no colo deitar
Fazer cafuné 
Na cama levar-te café 
Antes de virares comida
Eis que és tu, minha vida
Vou dizer no seu ouvido 
Já não estou mais dividido 
Tudo que quero é você 

PINGADEIRA

Com muita ternura eu venho te informar 
Que você é muito importante 
Nessa vidinha tão desimportante
Que a gente vive por aqui
Esqueço de tudo, menos de ti
Que em mim estás  todo instante
As lágrimas que choras
Sofro cada uma, por horas e horas
Até cessar a derradeira 
Meus olhos são pingadeira
É só água que desce
Mundo vai desabar
Não tem jeito que cesse
Enquanto você chorar
Nossos abraços 
Te tenho entre meus braços
Sempre prontos a lhe receber
O aperto é o conforto 
Que o teu poeta torto
Tem pra te acolher
Se fica no seu coração o lugar aonde moro
Sempre que ficares triste 
Se você chorar, eu choro
Não espero pra depois
Sou a outra parte triste que existe
Pois quando sofres, sofremos dois

NO TEMPO DO BISCÓ

Subia pelos ares
Fedia na cidade Baixa, Largo dos Mares
Barraco na beira do rio
Curtino fastio
Segurei as pontas
Morei ás margens
Beira do Rio das Contas
Tenho aquelas imagens
Na lavoura cacaueira
Sustentou uma oligarquia inteira
Regando uma flor murcha
Parasita brasileira
Veio a vassoura-de-bruxa
A conta chegou
Galinha dos ovos secou
O sonho dourado daquela burguesia
Que vivia que nem lesma
Mudou da noite pro dia
A coisa ficou séria
trabalhador ficou na mesma
Já vivia na miséria.
 
Eu já lavrei cacau
Mas me dei mal
Plantação do coronel
Mel com gosto de fel
Tinha que catar cajá
Gomo de Jaca pra chupar
O povo que empunha o biscó
Sempre levou a pior 

A AMIGA DELA

Não tens dimensão

Do estrago que causaste

Em meu pobre coração

Quando vais numa viagem

Fica sem mandar mensagem

De mim não queres saber mais não

Porquê c’ê foi embora?

Procurei na multidão

Volta, venha logo sem demora

Fosse eu vinha agora

Quero tanto botar pra fora

A dor cruel da solidão

E, findando, tenho algo a dizer

Quero que fique sabendo

Há um coração sofrendo

Com saudades de você

 

Inda ontem tava nóis aqui de boa

Apareceu outra pessoa

Começas-te a flertar

Então eu fiquei a toa

Foram as 2 passear

Algo mais além de um passeio

Eu levei foi um vareio

Estavam a namorar

Dizes que é só uma amiga

Não quero fazer intriga

Mas me custa acreditar

E, findando, tenho algo a dizer

Quero que fique sabendo

Há um coração sofreno

Com saudades de você

ESTRADA DO DESAGUAR

 

Pra Walter Guerra

Seguindo a estrada do desaguar

Só quem já não mais vai voltar

Deixou seus passos na areia da água 

Represada de tanta mágoa

Carrancismo de pirraça

O que não foi forjado na raça

Se evaporou, virou fumaça

A bordo de um comboio de cometas

Combo que explode pedras

Com a força de 77 mil marretas

Estridentes que nem as trombetas

Da Serra do Tombador

Vento assovia na ribanceira

Zanza na Macaqueira

E o som da carranca na raiz do maracujá

Enramado na sombra do Jatobá

Casca na cana caiana

Colher-de-pau, pilão de umburana

Mandacarú de facho

Cascavel de rodilha na toiceira

Descendo rio abaixo

Na curva do Roncador

Lajedão do Riacho

Fazendo currião, arreio e percata

Curtindo o couro cru da vida ingrata

Chinelo de dedo

Pisando o espinho da caatinga

carregando garotos sem medo 

Meu amigo, nunca mais

O mundo lhe foi pesado

A vida não lhe trouxe paz

8, 9 amigos que te choram

E ninguém mais

PESCARIA CÓSMICA

Quando saio pra pescar
Nuca esqueço os anzóis
Passei pelo Maciel
Fiz um corre pra nóis
Se fizer frio de noite
Tibungo embaixo dos lençóis
Outro tipo de devoção
Nem santos, tampouco heróis
A mais bonita das flores
Num campo de girassóis
Por ti viro uma fera
Genghis, rei dos Mongóis
Seus olhos queimam no escuro
São dois potentes faróis
Que brilham no universo
O mais potente dos sóis
Acendem pela galáxia
Explodindo paióis

PERSPECTIVAS PARA UMA NOITE

Á noite, quando todos estiverem dormindo,

Faremos nossa cama no chão

1 travesseiro, 1 coberta, 1 esteira e um colchão.

Falaremos de nós, do que o dia cala

Estaremos a sós no silêncio da sala

Curaremos nossas dores

Envolvidos em beijos de amores,

Emudecer, murmurar

Em um prazer que nesta noite não morrerá

E já será meia-noite

Acordados estaremos,

Fazendo amor, amaremos

Extasiados, então,

Dormiremos,

Ah!

Abraçados


BONITA

Morasse tu nessa poesia

Apaixonado a despertaria

Num amor maior que o dia

Antes dele ter começado 

Numa cama, amarrado 

Em você eu ficaria

De teu corpo me alimentaria

Comendo o que de ti me fosse dado

De sopinha, de colher 

Minha dose de mulher

Tanta teia pra destecer

Muito sexo por fazer

Feliz só é quem acredita

A verdade seja dita

Eis que ouso dizer

És a coisa mais bonita 

Que me poderia acontecer

MORTE POR MORTE VINGADA

Muitos assuntos eu poderia
Nessa glosa contar
Me alembrei   de um caso 
Vou na memória puxar
No meio da vaquejada 
No França deu de se dar
A praça da feira lotada 
Ninguém podia passar
2 tiros de escopeta
Fez Oseildo deitar
 
Caiu sem vida no chão 
Foi morte de empreitada
Tanto desprezo pela vida 
Que teve a sua ceifada.
Ligeiro seu pistoleiro 
De estratégia pensada
Passou a mão num rifle 
Já de arma engatilhada 
Pulou em cima do cavalo
Iniciou a caçada 
Quem derrubou seu patrão 
Teria as conta acertada
Uns 50 metros distantes
Jagunço em retirada
De pé em cima dos estrivos
Nuca da presa mirada
Único tiro certeiro 
Morte por morte vingada.

ASSIM CAMINHA O PROLETARIADO

Sábado de meiã

O dinheiro da feira tá no bolso

Mas não posso esquecer, seu moço

Daqueles que não tem

Pois eu não tenho garantido

Na semana que vem

Não sei se vou ter

Semana passada eu não tive

Sei como sobrevive

Quem num tem o que comer

Nem onde comprar fiado

Fora do mercado de trabalho

Carta fora do baralho

Assim caminha o proletariado

De cabeça baixa

Vivendo na caixa

Pisando em brasa

Tem que pôr a mesa em casa

Procurar trabalho fora

Aguentar a opressão da rua

E ter que ficar na sua

Nunca que faz sua hora

Oferece o seu pescoço

Para quem lhe alugue o passe

Age como indivíduo

Padece por ser da classe

SUJEITO HISTÓRICO

Tenho pensado na vida

Sem compromisso com nada

Olhando pela janela

Pensando em cair na estrada

Pronto pra caminhada

Voltar por onde passei

Descobrir o que não conheço

O que vivi eu já sei

Me servirá de começo

Tesouros não encontrarei

Não buscarei por riqueza

Não parto em busca de glória

Do futuro não tenho certeza

Sou parte da história

NÓ DE CABAÇA

O tempo que dura uma cabaça
Quis saber de certeza 
Perguntei a minha vó 
Vai depender da destreza
Do vivente que deu o nó 
O erro não é aceito 
O laço sai
O nó desfeito 
A cabaça cai
Água derrama
Na terra é lama
E beber num vai  
 
Um pé de coité
Parece ser de cabaça 
Porém parecer não é 
Quando é grande o maxixe 
Chamado de maxixão 
Seca e vira caxixe
Guizo de percussão 
A cabaça no meio cortada 
Vira cuia
Vasilha agamelada
Uma pequena tuia
De pegar farinha 
Fura, tira pivide e caroço 
Arranje uma linha 
Amarre no pescoço 
 
Mas cuidado com o nó 
Não é de qualquer jeito 
Aperte sem ter dó 
O erro não é aceito 
O laço sai 
O nó desfeito 
A cabaça cai
Água derrama
Na terra é lama
E beber num vai   

 


NOS 20 PÉS DO MARTELO ALAGOANO

Você que cativou meu coração 

Mando uns versos pra que nunca esqueça 

Caso você apareça 

Fique de recordação

O relato da minha paixão 

Estarei lhe esperano 

Continuo lhe amano 

Volte quando quiser

Pois você é a mulher 

Com quem vivo sonhano 

Dia e noite, noite e dia  

Tanto faz dormino ou acordado 

Em você vivo ligado 

Você é minha alegria

Em minha fantasia 

Você sempre tá presente 

Alumia meu repente 

Entre nós o oceano

Mas tá sempre no meu plano 

Ganhar dinheiro e juntar 

Pra atravessar o mar 

Nos 20 pés do Martelo Alagoano

COCO SIBERIANO

Um digital trotisquista

De bermuda em seu quiosque

Sentindo-se um maquinista

Imagina-se ser Trotsky

Mais um arrivista

Durante o tratado de Brest-Litovisky

Teórico simbolista

Não entendeu Maiakóvski

Aquele que não compreende

O quanto dói a dor

Não entendeu Fiódor

Escrito e relatado o tanto que dói

Guerra e Paz, Karenina, Liév Tolstói

A literatura da cena

A vida escrita na pena

Na prosa de Herzen as meditações de Elena

O aperto no peito aumenta seu torque

A vida é mãe e a universidade da universalidade de Gorky

DO CORDEL

Eu sou do cordel

De déu em déu

Registro meu versejar

A base do meu repente

Qualquer glosa que eu tente

No meu coco de embolar

Guarde eu na minha mente

Dígite no celular

Ou escreva no papel

De déu em déu

Janela do horizonte

Minha lavra bebe na Fonte

Dos romances de cordel

 

Inda era um minino

Da mão de Dollino

Sobrenome Ferreira Aragão

Poeta de convicção

Sábio da inspiração

Rimas de caso pensado

Sem medo de coroné

Num plantou capim guiné

Pra boi abanar rabo

Intimidado não se calou

Foi à Brasília dizer

Na cara do ditador

Seu cara de viado que viu cachinguelê

BATUQUE DO COBÉ

Você né Silvano

Nem Zé Burquia, que dirá Zé Beté

Por mais que faça seu plano

De Brequedeque num chega nos pé

Até que sabe tirar uma chula

Mais tome cuidado, não bula

Com o batuque que vem no Cobé.

Meu avô era Hermínio

Valente cabra-da-peste

Fichado na manutenção da Leste

Deixou prao neto o desígnio

De levar o samba adiante

Se quiser colher, primeiro que plante

Assunte com muita atenção

Toda certeza no que vai dizer

O verso revela sua intenção

Uma vez dito num vai disdizê

Oi foi lá, oi foi lá

Na vez derradeira, lembrei da primeira

Pra torar essa choradeira

Lajedão da Palmeira

Um dia pretendo voltar.

Pois, foi lá, pois foi lá

Que ficou quem era eu

Um minino que se perdeu

Hoje vivo a procurar

Esperança num faleceu

Espero d'agora indiante um dia encontrar .

Aprendeno uma vez

Posso garantir a vocês

Não vão esquecer como é

A chula corre na veia

O corpo bambeia

Esse Batuque vem do Cobé



DIVISÃO SILÁBICA

Têmpera, tempero, temperatura

Amargo, amargor, amargura

Letra, letreiro, literatura

Figo, figueira, figura

Desenvolto, desenvolvido, desenvoltura

Tinta, tinteiro, tintura

Rapa, rapado, rapadura 

Assim, assado, assadura

Gasto, gastado, gastura

Cinto, cintado, cintura

Dente, dentado, dentadura 

Rasgo, rasgada, rasgadura

Raso, rasante, rasura

Cara, careta, caricatura

Cantador não me acompanha

Se tiver a língua dura

Seu diploma de embolada 

Falta minha assinatura

Se não desenrolar ligeiro

Cancelo sua formatura 

 

Canto, cantor, cantoria

Tem que ter a língua mole

Senão num me desafia

Porque num aguenta um gole

Embolar embolando a embolada

Isso faço todo dia

Se você não me acompanha

Peça licença a moçada

Venha outro cantador

Pois você não canta nada

Manda outro preparado

Se embolo as palavras

O coco está lavrado

Preste atenção a ele

Se não você está lascado

Pois se não embolar o coco

É você o embolado

Espinhos, espinha, espinheira

Se tiver muito difícil
Fuja do sacrifício

É só tu marcar carreira

Vá pra caatinga e se esconda 

Na moita de quixabeira

Que é pra quando cantar coco

Voismicê num dá bobeira

Três tragos foram tragados

Traga o trigo e triture

Minimamente misturado

Se a língua não destravar

Não estava preparado

Toste um tostão tostado

Fure o furo do bolso furado

Mude sua matemática 

Reveja sua tática 

Entre numa livraria

Pergunte pra chefia

Fale de maneira enfática 

Diga querer uma gramática

Vai ter que muito treinar

Melhorar sua prática

Se quiser acompanhar

Minha divisão silábica



 

SUTAQUE BAIANO

Na regra gramatical
A desinência modo temporal
Indica que no verbo o tempo
Com o modo tem que estar combinando
O gerúndio indica uma ação
Que o tempo vai prolongando
Termina em n-d-o
Mas pra quê o D?
Da minha janela eu vou perguntando
Encurtamos a palavra engolimos o D
Por isso que em SP
Costumam dizer
Que todo baiano
Fala cantando.
Janela abrino
A vista vai longe
Horizonte sumino
Nela pensano
Fumaça subino
Veno ela
Da minha janela
Nel'eu pensano
Veno 2 mundos
Na grota tá garoano
Pros lados do sertão
Nem siná de chuva formano
Tefone toca
Mainha chamano
Me lembra que essa sumana
Eu troco de ano
Desde quano nasci
Eu sigo lembrano
Bem na procissão
Binidito lovano
Surgiu contração
As dô aumentano
Cadê seu Wilso
Povo perguntano
Chegou pôs no carro
E pro ispritá foro ela levano
De madrugada
Chutei avisano
Esquenta tambô
Que eu tô chegano
A bolsa rompeu
Minino chorano
Dei um soluço
Inguli o D
Fui pra casa cantano
O tempo passou
O mundo rodano
Fui pras Quebradas
Gíria dos mano
Dichavano a letra
As ideia eu ia trocano
Os truta já reparavam
Que cerol daora
sutaque baiano.

A FAVELA VENCEU

A favela é uma flor Que o sol quente cultiva Uma companheira antiga De infortúnio sertanejo Precisa ter molejo de suportar o desgosto ...